Planejamento da safra de trigo pós-soja: como definir cultivares, preparar a área e garantir alta performance
Resumo rápido
• O sistema soja-trigo traz benefícios agronômicos, operacionais e financeiros, mas exige planejamento antecipado da safra de trigo;
• Antecipar decisões garante melhor acesso a cultivares, insumos e estratégias mais alinhadas à realidade da propriedade;
• A escolha das cultivares deve considerar região, histórico dos talhões, manejo do solo e condições climáticas previstas;
• A palhada da soja e o intervalo entre as culturas influenciam diretamente o estabelecimento e a produtividade do trigo, sendo o uso de plantas de cobertura uma boa estratégia em janelas mais longas;
• Boas práticas de semeadura, como profundidade correta, velocidade adequada, umidade ideal do solo e regulagem da semeadora, são fundamentais para o bom estabelecimento;
• O manejo inicial deve priorizar o controle de plantas daninhas e o monitoramento de insetos;
• A rotação soja-trigo favorece a ciclagem de nutrientes, o manejo de herbicidas e a diluição de custos, reduzindo riscos econômicos.
Poucas culturas possuem uma sinergia tão benéfica ao agricultor como o sistema soja-trigo. Dentro da rotação de culturas, ele traz diversos benefícios agronômicos, operacionais e financeiros à propriedade.
Mas, para potencializar os benefícios oferecidos pelo cultivo de trigo pós-soja, é fundamental que o produtor antecipe o planejamento da safra de trigo ao máximo possível, definindo essas estratégias até o final da colheita da soja.
Por que o planejamento antecipado é fundamental para o trigo pós-soja
Segundo Ernandes Manfroi, gerente de pesquisa de trigo da GDM Seeds no Brasil, a maior parte dos produtores costumam realizar o planejamento da safra de trigo logo após a colheita da soja.
“Esse produtor vai considerar o resultado econômico da cultura da soja para entender a sua capitalização e o nível de investimento que ele fará”, destaca.
Entretanto, também há uma parcela de agricultores que costumam definir pelo plantio do trigo no último momento possível. Segundo Ernandes, o pouco tempo de planejamento é um dos principais fatores que podem levar a erros na implantação e execução da cultura.
— Se o produtor não define o planejamento do trigo logo após a colheita da soja, ele pode perder as melhores oportunidades de compra e disponibilidade de sementes. Com isso, as decisões acabam sendo reativas, baseadas no que há disponível no mercado, e não no que ele realmente precisa. E esse é um cenário potencialmente perigoso — alerta Ernandes.
Desta forma, é importante que o agricultor realize o planejamento da safra de trigo o mais antecipadamente possível, logo após ou até mesmo antes da colheita da soja.
— As melhores cultivares costumam se esgotar mais cedo. Então, é fundamental que o produtor se antecipe para que ele tenha tempo de fazer o planejamento e realizar uma melhor pesquisa de preços em relação a insumos e disponibilidade de cultivares — reforça.
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Critérios técnicos para a escolha das cultivares de trigo dentro de cada realidade
É seguro afirmar que a escolha das cultivares que irão compor a propriedade do produtor durante a safra de trigo é um dos fatores determinantes para o sucesso da operação.
Mas quais são os principais aspectos que devem guiar a decisão do produtor sobre quais são as cultivares mais adequadas para aquela realidade? Segundo Ernandes, os principais critérios são:
• A região onde o produtor está inserido;
• O histórico de produtividade dos talhões;
• O histórico de manejo e correção de solo da área;
• As condições climáticas previstas para a safra na região, como chuvas, períodos de seca e ocorrência de geadas.
Com base nessas informações, o agricultor poderá entender quais critérios – dentre produtividade, estabilidade produtiva, pacote fitossanitário e ciclo — são mais importantes para sua realidade.
Trigo após a soja: como a palhada e a janela entre culturas impactam a produtividade
Um dos principais benefícios agronômicos da sucessão de trigo após a soja é o aporte de nitrogênio disponibilizado pela oleaginosa ao cereal. Entretanto, os produtores de algumas regiões do país conseguem usufruir dessa condição mais que outros.
De forma geral, quanto mais próxima a semeadura do trigo for em relação à colheita da soja, melhores as condições deixadas ao cereal. Esse cenário é visto, principalmente, no Cerrado brasileiro – região em que a implementação do trigo costuma ser feita cerca de 15 dias após a retirada da soja.
— É uma condição excepcional para o plantio do trigo, praticamente sem planta daninha, pois a colheita da soja foi recém realizada, um solo com palhada nem excessiva, nem insuficiente, e uma plena disponibilização de nutrientes, em especial o nitrogênio — pontua.
À medida que descemos no mapa do Brasil, esse espaço de tempo entre a colheita da soja e o plantio do trigo vai aumentando. No norte do Paraná, essa janela costuma durar cerca de 25 a 30 dias. Ainda assim, as condições para a semeadura são muito positivas.
“Aquela palhada já se acomodou no solo e liberou os nutrientes, deixando o plantio do trigo ainda excepcional”, destaca.
Um pouco mais ao sul do mapa, no Rio Grande do Sul, o intervalo costuma aumentar para aproximadamente 60 dias, fator que dissipa uma parte dos benefícios deixados pela soja – que, mesmo assim, são aproveitados pelo trigo.
Contudo, nesses cenários, os produtores que obtêm as maiores produtividades são aqueles que inserem no planejamento dessa janela o cultivo de plantas de cobertura, de acordo com Ernandes.
— Eles normalmente utilizam culturas de cobertura rápidas nesse período, como o nabo forrageiro isolado ou em mixes junto com aveia ou milheto. O que não é recomendado, de forma alguma, é que o produtor deixe sua área em pousio, por uma série de motivos — pontua.
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O que analisar no solo e nos talhões antes de plantar trigo após a soja
Antes da semeadura do trigo, é recomendado que o produtor faça algumas avaliações nos talhões da propriedade para aumentar as chances de sucesso na cultura de inverno. Para Ernandes, as principais análises são de fertilidade, acidez do solo, histórico de produtividade dos talhões e histórico de plantas daninhas.
— Eu diria que o nível de fertilidade é a análise mais relevante que ele deve levar em consideração, mas outras também são importantes. Como o trigo é mais responsivo a solos bem corrigidos que a soja, é fundamental que a área não apresente problemas com alumínio tóxico. Além disso, o produtor deve avaliar o histórico de plantas daninhas do talhão para entender quais herbicidas será necessário utilizar — menciona.
Boas práticas de semeadura do trigo para um bom estabelecimento da lavoura
Na busca por potencializar a rentabilidade da safra de trigo, algumas medidas são indispensáveis durante a semeadura do cereal. Além da realização de regulagens periódicas no maquinário agrícola, o produtor deve se atentar quanto à umidade do solo, profundidade de semeadura e velocidade do plantio.
Profundidade ideal de semeadura do trigo
A profundidade ideal de semeadura da cultura do trigo é de 3 cm. E, pelo fato de a cultura não tolerar desvios nessa profundidade, o produtor deve sempre respeitar ao máximo esse limite.
— Se a profundidade for menor que 3 cm, há risco de prejuízos na germinação das sementes. Já quando a semeadura ocorre além dos 3 cm, o agricultor pode ter perdas de vigor da cultura, comprometendo o estabelecimento adequado das plantas — diz.
Velocidade ideal de semeadura do trigo
A velocidade de semeadura do trigo também é outro aspecto importante a ser respeitado. Para a maior parte das semeadoras encontradas em propriedades – as de fluxo contínuo –, a velocidade ideal de plantio gira em torno de 5 a 6 km/h.
Velocidades acima do recomendado podem causar impactos significativos no estabelecimento da cultura. Já velocidades abaixo dos 5 km/h, embora não ocasionem problemas no estabelecimento, impactam negativamente na operação, podendo gerar atrasos na semeadura.
Condições ideais de umidade do solo para semear trigo
Outro ponto de atenção durante a semeadura do trigo é a umidade do solo, que deve estar em níveis adequados, preferencialmente mais baixos.
— Um solo excessivamente úmido não favorece o plantio do trigo, pois ele causa problemas de embuchamento da semente. Por isso, é recomendado que a semeadura ocorra em solos com umidade ideal, mais secos do que úmidos — acrescenta Ernandes.
Ajustes da semeadora para plantio do trigo sobre palhada de soja
Independentemente da cultura, é dever do agricultor e de sua equipe técnica realizar regulagens periódicas em todo o maquinário agrícola. Durante a semeadura do trigo, isso não é diferente.
Devido à quantidade de palhada deixada pela cultura da soja, o produtor deve garantir que os discos da semeadora estejam bem regulados e afiados para cortar a palha. Além disso, a pressão atribuída nas linhas de semeadura precisa ser condizente com a quantidade de palhada no solo.
— Após a cultura do milho, por exemplo, seria necessário uma pressão mais forte no corpo de semeadura, com discos mais afiados. Quando olhamos para o pós-cultura da soja, essa pressão não precisa ser tão elevada, pois a menor quantidade de palhada interfere menos no plantio — pontua.
Manejos iniciais: os cuidados nos primeiros dias da lavoura de trigo
Nos primeiros dias após a semeadura do trigo, o foco do produtor deve se concentrar no monitoramento e manejo de plantas daninhas. Até porque esse é o período em que a planta está mais suscetível à matocompetição.
— Após a germinação e estabelecimento do trigo, deve haver um olhar cuidadoso para o monitoramento e manejo de plantas daninhas. Mas a recomendação primordial é que a lavoura precisa se estabelecer no limpo, e não no sujo — destaca Ernandes.
Outro monitoramento válido para os primeiros momentos após a emergência da cultura é o de insetos. Contudo, aqui, nem sempre o manejo será necessário por parte do agricultor. Vale a avaliação caso a caso.
Benefícios da sucessão soja-trigo na rotação de culturas
Dentro da rotação de culturas, o sistema soja-trigo é um dos mais viáveis que existem para o agricultor – ainda mais quando realizado com o devido planejamento. Seus benefícios não se restringem à esfera agronômica, permeando também o manejo de herbicidas e a área operacional da propriedade.
Benefícios agronômicos da rotação soja-trigo
Ambas as culturas aproveitam uma série de nutrientes no solo quando se estabelecem após a outra.
No caso do cultivo de trigo pós-soja, o nitrogênio oportunizado pela oleaginosa é altamente benéfico ao trigo. Já em cenários de soja pós-trigo, o cereal disponibiliza uma palhada rica em potássio, nutriente que também beneficiará a soja.
— Existe uma sinergia muito boa em termos de ciclagem de nutrientes: a soja deixa nitrogênio para o trigo e o trigo deixa muito potássio para a soja — resume Ernandes.
Benefícios da rotação soja-trigo no manejo de herbicidas
No ponto de vista da sustentabilidade do sistema de produção, a sinergia entre as duas culturas possibilita que o agricultor trabalhe com diferentes herbicidas.
— Os herbicidas que são utilizados para manejo na cultura do trigo não são os mesmos usados na soja, o que permite uma rotação de princípios ativos e de controle de plantas daninhas, fator positivo para a sustentabilidade do sistema — menciona.
Benefícios operacionais e financeiros da rotação soja-trigo
Mas nem só de benefícios dentro do campo a sucessão de soja e trigo se resume. Ela também é vantajosa do ponto de vista financeiro dentro da operação da propriedade. Afinal, oferece uma oportunidade para o agricultor trabalhar em duas safras cheias dentro de uma estação de cultivo, diluíndo seus custos fixos e reduzindo o risco econômico no negócio.
— Ao utilizar todo o maquinário e mão de obra disponíveis na fazenda para dois cultivos ao longo do ano, e não somente para um, é possível diluir de forma mais eficaz os custos fixos da propriedade e aumentar as chances de maior lucratividade no negócio — afirma Ernandes.
Aqui, a lógica é bastante simples: é mais arriscado carregar todos os custos fixos de prestação de equipamentos agrícolas e funcionários em uma cultura ou em duas?
— Isso faz com que o produtor tenha um risco grande atribuído a uma cultura. À medida que o produtor realiza dois cultivos, esse risco é reduzido — reforça.
Principais recomendações para planejar a safra de trigo após a soja
Em resumo, para aumentar as chances de sucesso no cultivo de trigo após a cultura de verão, o produtor deve:
• Dedicar tempo ao planejamento de forma antecipada;
• Realizar uma escolha assertiva de cultivares, considerando as características da sua região e dos talhões;
• Observar o pacote fitossanitário das variedades e adotar um manejo eficiente de doenças;
• Planejar a adubação nitrogenada ao longo do ciclo do trigo com base na expectativa de produtividade;
• Estruturar um bom planejamento de comercialização, identificando os melhores momentos de venda e, sempre que possível, aproveitando os períodos de preços mais elevados.
— Normalmente, o produtor que executa com eficiência todos esses passos é aquele que realmente faz dinheiro com a cultura do trigo — finaliza Ernandes.
