Plantas daninhas do trigo: conheça as principais espécies
Resumo rápido
- Azevém, nabo e nabiça são as principais plantas daninhas do trigo;
- Buva, cravorana, cipó-de-veado, aveia e plantas voluntárias também exigem atenção no trigo;
- Resistência a herbicidas torna o manejo mais complexo e exige estratégias além do controle químico;
- O uso de herbicidas pré-emergentes, quando possível, é uma ação recomendada no manejo químico;
- O manejo integrado, com monitoramento e prevenção, reduz infestações e preserva a produtividade.
O manejo de plantas daninhas é um dos principais desafios dos agricultores no Brasil. Essas plantas competem diretamente com as culturas por recursos, como água, luz e nutrientes, reduzindo o potencial produtivo da lavoura e elevando os custos de produção, especialmente quando o controle não é feito da forma correta e no momento adequado.
A última projeção realizada pela Embrapa sobre os prejuízos causados pelas plantas daninhas, referente à safra 2015/16, estimava perdas de cerca de R$ 9 bilhões ao agronegócio brasileiro. Dez safras depois, com ainda mais casos registrados de populações de plantas daninhas resistentes a herbicidas, o prejuízo pode ser ainda maior.
No caso da cultura do trigo, além dos impactos no rendimento, a presença de invasoras também pode interferir na qualidade dos grãos colhidos, outro fator que reflete diretamente na rentabilidade do produtor.
Desse modo, um manejo eficiente de plantas daninhas passa pelo monitoramento constante da propriedade, aliado ao conhecimento sobre as principais espécies que incidem na região, bem como a adoção de diferentes estratégias de controle.
Quais são as principais plantas daninhas do trigo?
Para Cristiano Piasecki, doutor em fitossanidade e especialista em manejo de plantas daninhas, diversas espécies de invasoras podem representar problemas na cultura do trigo – sobretudo em propriedades com histórico de ocorrência e/ou maior incidência daquela espécie.
Entretanto, o azevém e o nabo/nabiça se destacam como as principais plantas daninhas da cultura do trigo, de acordo com o especialista.
Azevém (Lolium multiflorum)
De forma geral, o azevém é considerado a principal planta daninha da cultura do trigo. Apesar de sua ocorrência ser comum em todas as regiões produtoras de trigo do Sul do Brasil, o azevém é predominante em regiões frias, que apresentam condições mais favoráveis ao seu desenvolvimento.
As maiores dificuldades para o controle do azevém estão relacionadas à densidade populacional que a espécie apresenta – uma vez que cada planta pode produzir aproximadamente 3,5 mil sementes – e à dificuldade de manejo químico da invasora, que apresenta populações resistentes a herbicidas inibidores da ALS, EPSPs e ACCase.
O azevém também gera relevantes impactos no potencial produtivo da lavoura de trigo. Populações de azevém entre 130 a 750 plantas por m² até a maturação do trigo ocasionaram em reduções de rendimento na ordem dos 4% a 22% em cultivares de porte alto e de 18% a 56% em variedades de porte baixo (FLECK, 1980).
Já Lamego et al., (2013) e Galon et al., (2021) relatam que, quando não se adota nenhum tipo de controle, as perdas de produtividade do azevém no trigo podem ser superiores a 80%.
Além dos danos na produtividade, altas infestações de azevém podem trazer impactos na qualidade dos grãos, uma vez que os grãos de azevém que serão colhidos possuem semelhanças morfológicas com os grãos do trigo, dificultando o processo operacional de separação, o que pode representar menor retorno econômico ao produtor.
Nabo e nabiça (Raphanus spp.)
Junto com o azevém, o nabo e a nabiça são considerados, atualmente, as principais plantas daninhas da cultura do trigo.
Devido à sua elevada capacidade de competição, a espécie pode trazer prejuízos significativos em produtividade para o trigo. Além dos impactos em rendimento, o nabo e a nabiça também podem afetar a qualidade dos grãos durante a colheita, devido aos seus caules e síliquas fibrosos.
O nabo e a nabiça apresentam resistência aos herbicidas inibidores da acetolactato sintase (ALS), como o iodosulfuron, metsulfuron e piroxsulam, fator que dificulta o controle da planta daninha na cultura do trigo.
Conforme Piasecki, uma das principais recomendações no momento do manejo químico é realizar a aplicação do produto enquanto a planta ainda possui menos de quatro folhas. Quando totalmente desenvolvida, a planta pode chegar a uma altura de 50 a 80 cm.
Buva (Conyza spp.)
Amplamente considerada uma das principais plantas daninhas da cultura da soja, a buva também possui ocorrência em culturas de inverno, como o trigo, mas sem causar o mesmo prejuízo em rendimento. No entanto, plantas de buva emergidas no trigo serão um problema relevante na soja cultivada na sequência.
A buva possui alta capacidade de produção e dispersão de sementes – com cada planta podendo produzir mais de 200 mil sementes. Elas, por sua vez, são fotoblásticas positivas, necessitando de luz para dar início ao seu processo de germinação.
Por essas características, o cultivo do trigo no inverno se torna uma importante estratégia para o controle da população de buva no verão, uma vez que o uso de herbicidas ao longo da cultura do trigo e a cobertura de solo proporcionada pelo cereal reduzem o fluxo de emergência da planta daninha.
Cipó-de-veado (Polygonum convolvulus)
O cipó-de-veado é uma espécie de planta daninha que se reproduz via sementes, as quais possuem capacidade de dormência inicial no solo, fator que dificulta seu controle.
Uma planta da espécie pode produzir até 30 mil sementes que germinam 2 meses após a maturação.
Conforme Piasecki, o cipó-de-veado é uma espécie que vem ganhando mais importância dentro da cultura do trigo nos últimos anos.
Para ele, dentro do controle químico em pós-emergência, o agricultor deve focar no manejo enquanto a planta ainda se encontra com tamanho reduzido e baixo número de folhas produzidas.
Cravorana (Ambrosia spp.)
A cravorana, também conhecida como losna-do-campo, tem ganhado relevância na Região Sul do Brasil como uma das principais plantas daninhas do sistema produtivo.
A espécie é de difícil controle para manejos em pré e pós-emergência. Assim, é recomendada a associação de glifosato com herbicidas hormonais, especialmente halauxifeno-metílico e florpirauxifen-benzil.
Plantas voluntárias como invasoras do trigo
Plantas voluntárias, também conhecidas como tigueras ou guaxas, também podem representar problemas para os agricultores na cultura do trigo – especialmente em invernos sem ocorrência significativa de geada.
Isso porque, além de competirem com o trigo por recursos, reduzindo o potencial produtivo da lavoura, as plantas também podem servir de ponte verde para doenças, pragas e nematoides na lavoura.
No Sul do país, as plantas voluntárias com maior ocorrência em trigo são as de soja e milho, principalmente, com plantas de feijão também sendo registradas em algumas regiões.
Dessas, as plantas de milho tendem a causar as maiores perdas de produtividade no trigo, devido à alta competitividade que o milho apresenta.
Aveia-preta ou aveia-branca (Avena strigosa e A. sativa)
Há décadas, a aveia é utilizada como uma das principais culturas de cobertura de solo, sobretudo no Sul do Brasil. Entretanto, quando não é bem manejada, a aveia pode se tornar uma planta daninha para as culturas de inverno do ano seguinte, como o trigo.
As sementes de aveia podem permanecer viáveis no solo por mais de um ano e possuem maior capacidade de germinação durante o inverno.
Conforme a UpHerb, infestações de 50 a 100 plantas por m² de aveia-preta podem trazer reduções de produtividade na cultura do trigo de cerca de 8,9 kg/ha para cada planta presente na área.
Outras plantas daninhas que podem ocorrer na cultura do trigo
Plantas daninhas como o caruru, leiteiro, picão-preto, poaia, entre outras, também podem gerar prejuízos no trigo, mas geralmente possuem importância secundária na cultura, tendo sua ocorrência relacionada a situações esporádicas.
Essas espécies tendem a ganhar mais importância em invernos com temperaturas mais elevadas, quando condições mais quentes favorecem espécies como o picão-preto, leiteiro e poaia, mais comuns de serem vistas no verão, mas que podem aparecer também no ciclo do trigo nesses anos.
Boas práticas para manejo de plantas daninhas
O manejo eficiente das plantas daninhas no trigo depende da combinação de diferentes estratégias, não se resumindo apenas ao uso de herbicidas – apenas um dos pilares do Manejo Integrado de Plantas Daninhas (MIPD). Entre as principais práticas recomendadas, destacam-se:
Rotação de culturas: a diversificação do sistema produtivo através da alternância de espécies dificulta a adaptação de plantas daninhas na área, reduzindo a pressão de infestação ao longo das safras;
Sementes de qualidade: o uso de sementes certificadas, livres de contaminação por plantas daninhas, favorece um estabelecimento rápido e vigoroso do trigo, tornando-o mais competitivo frente às invasoras;
Planejamento da dessecação pré-semeadura: realizar o manejo da área antes da implantação da lavoura, respeitando o intervalo entre a aplicação do herbicida e a semeadura, é fundamental para reduzir a infestação inicial. Além disso, realizar a dessecação das invasoras enquanto elas ainda possuem tamanho pequeno é essencial para aumentar o sucesso no controle das invasoras;
Utilizar herbicidas pré-emergentes: os herbicidas pré-emergentes atuam sobre as plantas daninhas durante a germinação, estágio em que estão mais vulneráveis. Além de reduzir a pressão inicial de infestação, o uso desses produtos diminui a dependência exclusiva do controle em pós-emergência, contribuindo para o manejo de populações resistentes, que hoje limitam a eficácia de diversos herbicidas;
Rotação de mecanismos de ação dos herbicidas: alternar entre diferentes mecanismos de ação ao longo das safras é uma medida fundamental para o manejo eficiente de plantas daninhas, bem como para a sustentabilidade do sistema produtivo;
Monitoramento constante da lavoura: acompanhar a lavoura em diferentes momentos potencializa as chances de que o produtor detecte precocemente o aparecimento das espécies de invasoras;
Evitar a formação do banco de sementes: não deixar plantas produzir e disseminar sementes na área, fator que agravará a infestação nas safras seguintes. Quando antes as plantas forem eliminadas, menor o impacto futuro dentro da propriedade.
Especialistas destacam boas práticas de manejo de plantas daninhas na lavoura
Manejo integrado é a chave para controlar plantas daninhas
O manejo de plantas daninhas é um desafio contínuo, que exige monitoramento constante da lavoura, conhecimento sobre a biologia de cada espécie e a combinação de diferentes estratégias de controle.
Na cultura do trigo, azevém e nabo/nabiça estão entre as principais preocupações dos produtores, mas muitas outras espécies também podem gerar prejuízos quando condições climáticas e o contexto regional favorecem sua ocorrência.
Mesmo em anos de menor investimento na lavoura, os cuidados com plantas daninhas de elevado potencial de dano econômico, como o azevém e nabo/nabiça, não devem ser deixados de lado.
Por isso, mesmo diante de restrições econômicas, investir em um manejo integrado, planejado antecipadamente e apoiado pela orientação técnica por parte de profissionais de confiança, é fundamental para minimizar os prejuízos causados pelas plantas daninhas – sobretudo aquelas de maior relevância econômica.
Assim, o produtor preserva o potencial produtivo da lavoura e potencializa a alta performance dentro de sua propriedade.
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