Por que usar sementes certificadas de soja? Entenda os impactos na produtividade e no futuro da agricultura

Resumo rápido

  • A área de soja cresceu, mas o uso de sementes certificadas não acompanhou esse crescimento no Brasil;
  • Hoje, 11% da área de soja utiliza sementes ilegais, gerando perdas de R$ 10 bilhões ao ano;
  • Sementes certificadas garantem identidade genética, sanidade, vigor e maior potencial produtivo;
  • Entre 7% e 8% do valor da semente financia o melhoramento genético e o desenvolvimento de novas cultivares de soja;
  • Cada nova geração de cultivares da DONMARIO/GDM entrega, em média, 1,5% mais produtividade;
  • Em 10 anos, novas cultivares podem oferecer potencial produtivo até 15% superior às atuais;
  • A redução no uso de sementes certificadas limita a inovação e compromete a competitividade futura.

 

As quatro últimas safras de soja no Brasil registraram um aumento de 4 milhões de hectares na área cultivada. No entanto, a demanda por sementes certificadas não acompanhou esse crescimento.

Atualmente, estima-se que o uso de sementes ilegais de soja represente de 10% a 11% da área da oleaginosa no país.

Esse cenário é reflexo dos desafios enfrentados pelos agricultores, que convivem com adversidades climáticas mais recorrentes e dificuldades financeiras.

Ainda assim, a redução no uso de sementes certificadas de soja pode trazer impactos relevantes para a cultura e para o agronegócio brasileiro – tanto do ponto de vista da indústria de sementes, que sofre com a redução na capacidade de investimento em novas tecnologias, quanto do ponto de vista do agricultor, que pode ser afetado por consequências no curto, médio e longo prazo.

Qual é o cenário atual das sementes certificadas de soja no país

De acordo com a consultoria Céleres, a área plantada de soja no país cresceu 4 milhões de hectares entre as safras 2022/23 e 2025/26. Enquanto isso, no mesmo período, a demanda por sementes certificadas cresceu menos que a área, passando de 47 milhões de sacas para 49 milhões de sacas.

Um estudo da CropLife Brasil, realizado em parceria com a Céleres, mostra que, em 2024, 67% dos agricultores adquiriram sementes certificadas de soja no Brasil. Como consequência, 33% da área cultivada utilizou sementes não certificadas. Dessa quantia, estima-se que 11% da área de soja do país seja plantada com sementes ilegais, comercializadas sem atender às exigências previstas na legislação.

O estudo também mensura que a pirataria de sementes de soja no Brasil gera perdas de aproximadamente R$ 10 bilhões por ano para agricultores, indústria de sementes, setor de processamento de grãos e exportações.

O cenário das sementes certificadas de soja no Sul do Brasil

No Rio Grande do Sul, a taxa de utilização de sementes certificadas de soja na safra 2025/26 foi de 40%, segundo dados da Associação dos Produtores de Sementes e Mudas do Rio Grande do Sul (Apassul).

O índice está profundamente atrelado às sucessivas estiagens registradas nas últimas safras de verão no estado, marcadas por prejuízos significativos na produtividade da soja e consequente influência na capacidade de investimento dentro da propriedade.

— Nas últimas safras, os produtores do RS tiveram dificuldades com estiagens, tanto que, se observarmos o histórico de produtividade das últimas sete safras, enquanto o Brasil colheu 58 sc/ha, em média, o RS colheu uma média de 41 sc/ha. Então, é uma receita bem expressiva que deixou de existir para o produtor, o que acabou dificultando sua sustentabilidade financeira. Somado a isso, ainda enfrentamos o desafio da semente sem origem, que agrava o problema em vez de resolvê-lo — explica Jean Carlos Cirino, diretor-executivo da Apassul.

Apesar desse cenário, Cirino afirma que há a expectativa de crescimento na adoção de sementes certificadas de soja nas próximas safras.

— Hoje, a adesão às sementes certificadas de soja no RS não está em um cenário muito positivo, mas existe uma tendência de aumento. Ela vem das ações de melhoria da integridade do modelo de captura de valor da biotecnologia e também do trabalho que a Apassul vem fazendo com o Projeto Eleva, que busca ofertar sementes de qualidade superior ao agricultor por meio de qualificação, monitoramento e aprimoramento dos processos do setor — pontua.

O cenário das sementes certificadas de soja no Cerrado brasileiro

No Mato Grosso, maior produtor de soja do país, a taxa de uso de sementes certificadas de soja na última safra foi de 94%, de acordo com dados da Associação dos Produtores de Sementes de Mato Grosso (Aprosmat).

O elevado índice de adoção pode ser explicado por diferentes fatores. Um deles é a maior dificuldade para produzir e armazenar sementes salvas no estado.

Isso porque temperaturas mais baixas favorecem a conservação das propriedades fisiológicas das sementes, como germinação e vigor. No Cerrado, por outro lado, as altas temperaturas médias geram uma maior dependência por estruturas artificiais de resfriamento das sementes, elevando os custos de armazenamento.

Entretanto, a alta taxa de uso também pode ser explicada pela qualidade que a indústria de sementes do Mato Grosso tem conseguido entregar ao agricultor.

De acordo com Oribel Silva, diretor-executivo da Aprosmat, todos os associados da entidade comercializam sementes com índice de germinação igual ou superior a 90%, mesmo com a legislação brasileira estabelecendo o limite mínimo como 80% – conforme a Lei de Sementes nº 10.711/2003.

— Os produtores de sementes e multiplicadores do Mato Grosso têm investido, cada vez mais, em qualidade. Desde 2016, estabelecemos um compromisso com nossos associados de apenas comercializar sementes com pelo menos 85% de germinação. Em 2024, aumentamos essa taxa para 90%. Com isso, estamos subindo o nível de qualidade da semente do Mato Grosso e incentivando o agricultor do estado a utilizar sementes certificadas — destaca Silva.

Quais são os benefícios agronômicos das sementes certificadas de soja?

A semente certificada de soja oferece uma série de benefícios agronômicos ao produtor, contribuindo para o estabelecimento da lavoura, a sanidade da área e o potencial produtivo da cultura. Esses benefícios são assegurados pelos padrões mínimos de qualidade exigidos pela legislação brasileira para a produção e comercialização de sementes.

Ao adquirir sementes certificadas, o produtor tem a garantia da identidade genética daquela semente – ou seja, a certeza de que ela pertence à variedade que ele adquiriu.

Além disso, ele também possui a garantia de que, ao plantar a semente adquirida, ele não estará incorporando doenças, plantas daninhas e plantas voluntárias de outras culturas à sua propriedade.

Entenda mais sobre os benefícios agronômicos da semente certificada na soja

Outro diferencial é a garantia de padrões mínimos de germinação e vigor, que proporcionam maior uniformidade na emergência das plantas, favorecem o estabelecimento da lavoura e contribuem para o incremento médio de produtividade ao final do ciclo.

Mas, o investimento em sementes certificadas não gera apenas ganhos agronômicos imediatos. Ele também traz relevantes impactos à propriedade no médio e longo prazo, podendo refletir, inclusive, na sucessão familiar do negócio.

Como o uso de sementes não certificadas afeta a indústria de sementes

Ao adquirir sementes certificadas de soja, o agricultor não investe apenas na produtividade da próxima safra. Parte do valor pago pela semente também remunera a pesquisa responsável pelo desenvolvimento de novas cultivares.

Entre 7% e 8% do valor da semente certificada é destinado à obtentora genética que desenvolveu a cultivar. No caso de cultivares da DONMARIO Sementes, esse recurso é direcionado à GDM Seeds e é crucial para financiar o programa de melhoramento genético da empresa, responsável pelo lançamento de novas cultivares de soja.

Desse modo, quando o agricultor deixa de adquirir sementes certificadas de soja, ele reduz, ainda que indiretamente, a capacidade de investimento em pesquisa e inovação, comprometendo o lançamento de cultivares que poderão fazer a diferença na perpetuidade da propriedade rural nas próximas décadas.

— Aqueles 67% [de agricultores que compraram sementes certificadas de soja no Brasil em 2024] são os produtores que fortalecem a sustentabilidade econômica da cadeia produtiva e preservam a capacidade de inovação para as próximas gerações que poderão assumir sua propriedade — afirma Fernando Michel Wagner, gerente de negócios institucionais da GDM Seeds.

Vale destacar que, dos 33% dos agricultores que não adquiriram sementes certificadas na safra em questão, 22% utilizaram sementes salvas, prática permitida pela legislação brasileira quando destinadas ao uso próprio.

— A reserva de grãos para uso próprio é um direito do agricultor. Também é importante que, mesmo produzindo sua semente, ele realize seus testes e tenha garantia da qualidade do que está sendo plantado. Mas, ainda assim, ele deve ter consciência de que, mesmo agindo conforme a lei, ele não está contribuindo para renovar o ciclo de cultivares de soja — destaca Wagner.

Com a redução na taxa de uso de sementes certificadas da cultura nos últimos anos, uma das principais consequências, que já pode ser sentida, é o enfraquecimento do melhoramento genético e da indústria de sementes como um todo.

— Esses são dois elos fundamentais para a sustentabilidade da propriedade rural e da competitividade do agronegócio brasileiro. Nós ainda não sabemos quais serão os desafios da cultura da soja dentro de 10 anos, mas o melhoramento genético precisará ampliar muito sua capacidade para trazer novas soluções (cultivares) para eles. Ao não remunerar a pesquisa, o produtor acaba limitando suas opções para combater os desafios de amanhã, pois ele poderá não ter uma solução pelo melhoramento genético — alerta Wagner.

Entenda o por que especialistas afirmam que a alta performance começa na semente

Como o uso de sementes não certificadas afeta o agricultor

O impacto da utilização de sementes certificadas de soja vai além da safra atual. E para entender essa importância, basta olhar para a história recente da soja no Brasil.

Há cerca de 20 anos, dois acontecimentos transformaram a produção nacional da oleaginosa:

  • A chegada da ferrugem-asiática, a partir de 2001;
  • O lançamento das primeiras cultivares geneticamente modificadas, a partir de 2005.

— A entrada de uma nova genética, que oferecia cultivares com porte menor, ciclo mais curto e maior facilidade de manejo, fez com que o agricultor tivesse maior sucesso no controle da ferrugem-asiática, que vinha dizimando lavouras na época — relembra Fernando Wagner.

Atualmente, o programa de melhoramento genético da GDM para a cultura da soja conduz cerca de 650 mil novas parcelas por ano, que formam mais de 50 mil linhagens, avaliadas em mais de 250 locais, espalhados por todas as regiões produtoras do Brasil. Tudo isso, com o objetivo de desenvolver cultivares adaptadas aos desafios presentes e futuros da cultura.

No curto prazo, esse investimento em pesquisa resulta no lançamento anual de novas cultivares para o agricultor que planta DONMARIO. Conforme dados da GDM, cada nova geração apresenta, em média, 1,5% de ganho de produtividade em relação às variedades do ano anterior.

No longo prazo, o produtor ganha novas cultivares mais preparadas para lidar com os desafios do futuro, mas também usufrui de variedades ainda mais produtivas.

Afinal, segundo dados da GDM, um agricultor que adota continuamente as novas cultivares lançadas pela empresa – com a mesma área e investimento em insumos – pode ter acesso, dentro de 10 anos, a materiais com potencial produtivo cerca de 15% superior ao das cultivares disponíveis atualmente.

— O melhoramento genético não é feito pensando em macrorregiões, e sim observando as microrregiões. Mas, como manter a entrega de soluções capazes de lidar com os próximos desafios se o investimento em sementes certificadas vem reduzindo? Para citar o exemplo da Argentina, atualmente o país conta com uma taxa de uso de sementes certificadas de 20%. Isso fez com que empresas que investiam em germoplasma (cultivares) e biotecnologia se retirassem do país. Como consequência, nos últimos 20 anos a Argentina obteve menos da metade do ganho de produtividade em soja registrado pelo Brasil no mesmo período — relata Wagner.

Por que investir em sementes certificadas é investir nas próximas gerações da propriedade

Sem a semente, não há lavoura. Por isso, mesmo diante de um cenário econômico desafiador, a semente continua sendo o principal insumo – e investimento – do agricultor. É o que afirma Oribel Silva.

— É a partir da semente que o agricultor vai obter os resultados da sua lavoura. Se for preciso reduzir custos, existem outras possibilidades dentro do manejo da cultura, ou até mesmo nos processos internos da propriedade. O que não podemos fazer é economizar justamente no principal insumo, que é a semente — reforça Silva.

Caso, ainda assim, o investimento em sementes certificadas gere dúvidas, Jean Carlos Cirino propõe uma reflexão sobre o futuro da própria atividade agrícola.

— Se o agricultor pensar onde quer estar em produtividade daqui a 10 anos, provavelmente concluirá que não chegará lá apenas com as cultivares disponíveis hoje. Então, ele precisa incentivar a pesquisa hoje para ter a oportunidade de plantar variedades ainda mais produtivas amanhã — explica Cirino.

A reflexão, segundo Fernando Michel Wagner, também deve considerar o futuro da competitividade da sojicultura e do agronegócio brasileiro.

— A Argentina perdeu uma década quando ela decidiu não valorizar a genética vegetal. O Brasil ainda está em um período excelente para discutir esse tema, mas o reconhecimento da propriedade intelectual vem diminuindo e o mercado de sementes já perdeu um volume significativo. A pergunta é: onde que o Brasil quer estar daqui a 10 anos? — questiona Wagner.

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