Doenças da soja: ferrugem asiática e mofo branco

 em Cultivares, Manejo Certo, Pragas e Doenças

Dentre os principais desafios que o produtor de soja enfrenta durante a safra, destacam-se a prevenção e o manejo de doenças.

Grande parte das doenças que atacam as lavouras de soja são causadas por fungos, tendo um impacto significativo na produção e rentabilidade, o que torna fundamental a correta identificação e controle dessas doenças. Hoje, vamos falar sobre duas delas: a ferrugem asiática e o mofo branco.

 

Ferrugem asiática da soja: uma doença que pode comprometer a produtividade da sua lavoura!

Maicol de Mattos – Supervisor Técnico de Desenvolvimento M1

 

 

 

 

 

Identificada pela primeira vez no Brasil em 2001 e, hoje, encontrada em todas as regiões produtoras de soja no país, a ferrugem asiática, uma doença causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, vem ocasionando diversas perdas de produtividade para a cultura nas últimas safras.

Pesquisadores relatam que os danos da ferrugem asiática podem chegar a 70% se a doença não for controlada. A presença do fungo, aliada a condições favoráveis, aumenta a dispersão dos esporos e a infecção, ocasionando desfolha precoce das plantas e prejudicando a completa formação dos grãos, o que reduz drasticamente a produtividade da cultura.

Figura 1: Desfolha precoce das plantas devido à alta severidade do fungo Phakopsora pachyrhizi, causador da ferrugem asiática da soja.

 

Condições favoráveis e sintomas da ferrugem asiática

A disseminação da ferrugem asiática acontece facilmente pelo vento, através dos uredósporos que podem chegar a longas distâncias. A disponibilidade de água livre na superfície da folha por, no mínimo, 6 horas, aliada a temperaturas entre 15oC e 28oC já são condições suficientes para que o fungo comece a realizar o processo de infecção na planta.

Os sintomas da ferrugem asiática têm início no terço inferior da planta, com a observação de pontuações de colorações mais escuras que o tecido sadio foliar superior.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 2: Folha de soja observada contra a luz. Possível sintoma de ferrugem asiática.

Como ferramenta de auxílio é importante a utilização da lupa para confirmação da doença, observando a parte inferior das folhas (face abaxial), verificando a presença de saliências, chamadas de urédias, que são a estrutura reprodutiva do fungo. Estas estruturas podem ter coloração de castanho-claro para castanho-escuro de acordo com o passar do tempo e a liberação dos esporos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 3: Formação de estruturas reprodutivas do fungo no verso da folha (face abaxial).

 

Monitoramento e estratégias de manejo

O monitoramento das lavouras para identificação da presença e estádios da ferrugem asiática é de fundamental importância para as tomadas de decisões de controle desta doença. Dentre as diversas estratégias de manejo que podem ser implementadas para prevenir, controlar ou retardar a severidade da doença, temos estratégias de manejo culturais e químicas.

Manejo cultural – associada à escolha de cultivares, época de semeadura e ao manejo do sistema de produção:

  • Adoção do vazio sanitário: estratégia que visa o monitoramento e eliminação das plantas voluntárias de soja, contribuindo, assim, para a diminuição e eliminação dos esporos do fungo na entressafra.
  • Semeadura antecipada: deve ser feita de acordo com as épocas indicadas para cada região, contemplando a abertura de plantio quando possível.
  • Densidade populacional: ajustar o posicionamento de acordo com cada cultivar, visando contemplar boa penetração de luz no dossel foliar da parte inferior das plantas e eficiência na penetração de fungicidas.
  • Utilização de cultivares precoces: evitar o período crítico de pressão da doença no estádio reprodutivo, especialmente no enchimento de grãos.
  • Cultivares com o(s) gene(s) de resistência ou tolerância: estas cultivares possuem um importante papel na segurança da produtividade. Porém, é de extrema importância que, aliada a essa tecnologia, façamos o uso das aplicações químicas para evitar uma seleção natural do fungo.
  • Rotação de culturas: visa equilibrar química e fisicamente o solo, contribuindo no equilíbrio de absorção de nutrientes das plantas e, consequentemente, na tolerância à severidade da doença.

Manejo químico – é uma das principais estratégias de manejo utilizadas atualmente para o controle da ferrugem asiática:

  • Rotação com aplicações de fungicidas de diferentes mecanismos de ação.
  • Calendarização das aplicações.
  • Aplicação de forma preventiva para evitar a entrada da doença na lavoura.
  • Utilização de doses recomendadas na bula dos produtos e a associação de fungicidas multissítios.
  • Utilização de equipamentos de aplicação sempre em bom estado de conservação.

Empregando essas boas práticas de manejo, com as ferramentas de controle disponíveis no mercado, é possível proteger a cultura da ocorrência desta doença tão prejudicial e, principalmente, alcançar altas produtividades das lavouras de soja.

 

Mofo branco na soja: como identificar e controlar?

João Paulo Schechtel – Supervisor Técnico de Desenvolvimento M1

 

Já o Mofo branco, também conhecido como Podridão-de-Esclerotínia, é uma doença capaz de gerar uma quebra de até 40% na produtividade quando não controlada de forma eficaz.

Dentre os fatores necessários para o desenvolvimento da doença, destaca-se o fator ambiente, que é influenciado diretamente pela alta umidade do ar e temperaturas amenas. O fungo pode se desenvolver em condições de temperatura que varia de 5 a 30°C, tendo sua faixa ideal para o desenvolvimento entre 11 e 25°C.

A doença é causada pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum e apresenta mais de 500 espécies de plantas hospedeiras no mundo, sendo algumas de importância econômica, como: soja, feijão, algodão, batata, canola, tomate, girassol, entre outras.

O fungo é necrotrófico, ou seja, se alimenta de tecidos mortos das plantas. Inicialmente, gera o desenvolvimento de lesões aquosas nas folhas e hastes, que acabam se tornando necróticas. Ao mesmo tempo, o fungo desenvolve um micélio branco de aspecto cotonoso (parecido com algodão) (conforme Figura 1), que pode ser visível tanto na parte aérea quanto nas raízes da planta e, com a sua evolução, pode gerar escleródios interna e externamente ao tecido da planta (conforme Figura 2).

Figura 1 – Sintoma do Mofo-Branco
Foto: João Paulo Schechtel

Figura 2 – Escleródios
Foto: João Paulo Schechtel

Figura 3 – Apotécios
Foto: Paulo Roberto Dzierwa

Os escleródios são agregados de hifas, que formam estruturas de resistência e conferem a possibilidade de o fungo sobreviver até 10 anos no solo em condições desfavoráveis.

O período em que a cultura da soja se encontra mais susceptível à infecção do fungo causador do Mofo Branco é no florescimento, quando a planta emite os botões florais e inicia a fase reprodutiva do seu ciclo, sendo esta fase o período crítico para o manejo da doença.

O manejo desta doença inclui várias práticas que, quando utilizadas de forma adequada e em conjunto, podem trazer níveis de controle satisfatórios ao Mofo branco.

A primeira prática para o manejo adequado da doença é a utilização de sementes certificadas e de qualidade, livres do patógeno, sendo uma das formas mais eficazes de evitar a introdução do fungo em lavouras onde a doença não está presente. Vale salientar que o fungo S. sclerotiorum vem sendo categorizado como uma “Praga Não Quarentenária Regulamentada” no Brasil pelo Ministério da Agricultura. Dessa forma, o uso de sementes certificadas traz a garantia de utilização de sementes não contaminadas pelo fungo.

Outra prática de manejo é a rotação de culturas, uma vez que a ausência de plantas hospedeiras pode reduzir a taxa de inóculos no campo. A rotação é uma prática com efeitos a longo prazo, que é essencial para o manejo não só do Mofo branco, mas também para outras doenças e pragas importantes da cultura da soja.

O sistema de plantio direto também é uma alternativa que auxilia no manejo dessa doença, uma vez que pode induzir uma germinação precoce dos apotécios através da manutenção das condições de umidade sob a palhada, transformando esta mesma palhada em um impedimento físico para infecção da planta.

Para a cultura da soja, a semeadura em épocas específicas pode ser considerada uma estratégia interessante no manejo, considerando áreas com histórico de alta pressão do fungo. Uma semeadura mais tardia, pensando no Sul do Brasil, possibilita que a cultivar não coincida seu período de florescimento com um período de condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento da doença.

Considerando o manejo químico, é importante ter em mente que se trata de uma prática preventiva e não curativa.

O manejo realizado através de produtos químicos inicia-se preferencialmente com uma primeira aplicação no estádio de florescimento ou R1, podendo variar suas aplicações complementares em uma ou duas aplicações sequenciais, com intervalos entre 7 e 10 dias conforme a cultivar utilizada, condições do ambiente, pressão da doença e recomendação do fabricante com doses que podem variar entre 0,5L/há e 1L/ha de produto comercial.

Vale salientar a importância de uma boa tecnologia de aplicação para a pulverização de fungicidas focados no manejo dessa doença, sendo que as pulverizações são realizadas com volume de calda geralmente igual ou superior a 100L/há, com o objetivo de uma maior cobertura e alcance do produto no baixeiro da planta. A escolha do bico de aplicação deve ser o que melhor se ajuste a esse objetivo, visto que esses produtos atuam de forma preventiva.

Outras medidas como o tratamento de sementes também são recomendadas por alguns pesquisadores e produtores, introduzindo produtos à base de Fluazinam ou Carbendazim no tratamento de sementes que serão semeadas em áreas com histórico da doença.

Considerando o controle biológico, existem relatos otimistas com relação ao uso destes produtos no manejo do Mofo branco, formulados à base de Trichoderma asperellum, Trichoderma harzianum e Bacillus subtilis. Sua utilização e eficiência dependem da qualidade do produto, da sua capacidade de multiplicação ou colonização, dos cuidados durante a armazenagem e das estratégias empregadas como tecnologia e momento de aplicação

Por fim, o Mofo branco é uma doença de grande importância no cultivo da soja e seu manejo está diretamente relacionado às boas práticas agrícolas, vinculando todas as estratégias de manejo e realizando o monitoramento das condições climáticas e dos estádios de desenvolvimento da sua lavoura para inserção do melhor manejo no momento adequado.

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