Como controlar a ferrugem-asiática da soja: guia completo de manejo da doença
Resumo rápido
- A ferrugem-asiática pode causar perdas de até 100% e é a principal doença da soja;
- O Phakopsora pachyrhizi se dissemina pelo vento e infecta a soja com 6-8 horas de molhamento e 20-25ºC;
- Vazio sanitário reduz o inóculo ao eliminar plantas vivas de soja por pelo menos 90 dias;
- Cultivares resistentes e posicionadas na janela correta ajudam a reduzir riscos e preservar produtividade;
- Semeadora, colhedora e pulverizador regulados contribuem para o manejo integrado da doença;
- No manejo químico, é indicada a associação de triazois, estrobilurinas e fungicidas multissítio, com carboxamidas como opção para algumas misturas;
- De modo geral, a primeira aplicação de fungicida pode ser posicionada entre V6-V8 e R1;
- Manejo integrado combina vazio sanitário, genética, posicionamento, maquinário, TS e fungicidas.
A ferrugem-asiática é causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi e, devido ao seu elevado potencial de dano, que pode comprometer até 100% da lavoura, a doença é considerada a mais importante da cultura da soja no país.
Relatada no Brasil pela primeira vez no final da safra de 2001, a doença rapidamente se espalhou pelo país, dizimando lavouras e trazendo prejuízos bilionários aos agricultores. Estima-se que, entre as safras 2001/02 e 2003/04, a ferrugem-asiática tenha causado perdas de mais de 8,5 milhões de toneladas de soja, o equivalente à época a US$ 2,06 bilhões.
Atualmente, a ferrugem-asiática segue sendo de extrema importância para a sojicultura brasileira. Entretanto, os produtores dispõem de novas tecnologias e estratégias de manejo, que reduzem consideravelmente os danos causados pela doença.
O que é a ferrugem-asiática da soja e como ocorre a infecção da doença?
A ferrugem-asiática é uma doença causada pelo Phakopsora pachyrhizi, um fungo biotrófico – ou seja, que sobrevive somente em tecidos vivos.
Sua disseminação ocorre pelo vento, responsável por transportar os esporos por longas distâncias até que eles alcancem novas plantas hospedeiras.
Após se depositarem sobre as folhas, os esporos necessitam de condições ambientais favoráveis para iniciar seu processo de infecção, como temperaturas entre 20ºC e 25ºC e um período de molhamento foliar contínuo de 6 a 8 horas.
Qual é o potencial de dano da ferrugem-asiática na soja?
De acordo com Paola Milanesi, professora de fitopatologia da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS – Campus Erechim/RS) e doutora em agronomia, o potencial de dano da doença depende do manejo que o produtor irá adotar na lavoura.
Em situações em que a doença não é controlada, a ferrugem-asiática pode causar perdas de produtividade de até 100% da lavoura.
Nos cenários em que o produtor adota as principais medidas para controle da doença, as perdas de produtividade tendem a ficar em torno de 10%, variando conforme a severidade da doença, as condições climáticas e o momento do ciclo da cultura em que ocorre a infecção.
Manejo integrado da ferrugem-asiática: principais medidas de controle
As principais medidas para o controle da ferrugem-asiática na soja são o vazio sanitário, a escolha da correta época de semeadura, a adoção de cultivares com nível de resistência à doença e a utilização de fungicidas para manejo químico.
Além disso, visando o manejo geral da lavoura e considerando a incidência de outras doenças na cultura da soja, é altamente recomendado que o produtor adote um sistema de rotação de culturas, bem como realize tratamento de sementes, faça ajustes periódicos na semeadora e na colhedora e atente-se para as regulagens necessárias no pulverizador.
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Quando integradas, as medidas de controle para a ferrugem-asiática aumentam consideravelmente o sucesso do agricultor frente à doença.
Vazio sanitário da soja: por que ele é essencial para controlar a ferrugem-asiática?
O vazio sanitário é a principal estratégia adotada no Brasil para reduzir a pressão da ferrugem-asiática. A medida busca diminuir o inóculo do fungo Phakopsora pachyrhizi, que depende exclusivamente de plantas vivas de soja para sobreviver e continuar seu ciclo.
Para isso, anualmente é estabelecido um período contínuo de, no mínimo, 90 dias durante o qual é proibido semear soja ou manter plantas vivas da cultura no campo, independentemente do estágio de desenvolvimento.
Assim, ao eliminar o hospedeiro do patógeno, são reduzidas as chances de sobrevivência, multiplicação e disseminação do fungo. Como consequência, a pressão inicial da doença tende a ser menor na safra seguinte, favorecendo um manejo mais eficiente da ferrugem-asiática.
Por sua importância para a sanidade das lavouras, o vazio sanitário deve ser rigorosamente respeitado por todos os produtores. Na prática, isso significa realizar o plantio dentro do calendário oficial de semeadura e eliminar todas as plantas voluntárias de soja (também conhecidas como guaxas ou tigueras) presentes na propriedade, incluindo as encontradas nas beiras de estradas.
Essas plantas atuam como ponte verde para o fungo, permitindo com que ele permaneça vivo e se dissemine justamente durante o período em que a doença deve ser controlada.
Calendário oficial de vazio sanitário e semeadura da soja na safra 2026/27
O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) estabeleceu os períodos de vazio sanitário e de semeadura para a cultura da soja na safra 2026/27. Eles podem ser consultados na Portaria SDA/MAPA Nº 1.579, através deste link.
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Escolha de cultivares resistentes é um dos pilares no controle da ferrugem-asiática
A escolha das cultivares que irão compor a propriedade é um dos pilares de um planejamento de safra bem feito. Essa decisão passa por inúmeros fatores, como o potencial produtivo e ciclo das variedades e o histórico fitossanitário da área.
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Em cenários com maior possibilidade de ocorrência da ferrugem-asiática, seja pelo histórico da região ou pelas condições climáticas favoráveis à ocorrência do fungo, optar por cultivares resistentes à doença pode fazer a diferença ao final da safra.
A safra 2026/27 deve ser marcada pela presença do El Niño, fenômeno climático que, na Região Sul do país, está historicamente ligado ao aumento do volume de chuvas. Com isso, cresce a importância pela escolha de cultivares resistentes às doenças prevalentes em anos mais úmidos.
— A escolha por cultivares que sejam adaptadas à região do produtor e que tenham resistência genética para doenças que sejam chave nesses períodos de maior umidade, como a ferrugem-asiática, além de outras doenças foliares e de solo, faz toda a diferença. Mas, assim como é fundamental escolher a cultivar adequada, é essencial que o produtor adquira sementes certificadas e de qualidade, pois muitas doenças são transmitidas pela semente — aponta Milanesi.
Cultivar na janela certa: por que o posicionamento adequado é fundamental
Além de respeitar o período estabelecido para plantio pelo MAPA, é indicado que o agricultor siga o posicionamento das cultivares escolhidas e plante-as nas janelas de semeadura recomendadas pela obtentora genética.
— O produtor que não segue o posicionamento indicado para a cultivar corre o risco de não conseguir explorar todo o potencial produtivo que aquela genética oferece. No caso de cultivares da DONMARIO, é estimado que o posicionamento correto da variedade responda por 20% a 30% do potencial produtivo da lavoura, seja no que diz respeito à janela de plantio recomendada ou nível de fertilidade adequado da área — destaca Felipe Bianchessi, agrônomo e coordenador de desenvolvimento de mercado da DONMARIO no Sul.
Como a regulagem dos equipamentos ajuda no controle da ferrugem-asiática
A revisão e regulagem dos equipamentos é uma das principais práticas que devem fazer parte do planejamento de toda a safra. Além de um bom desempenho operacional no campo, essas práticas ajudam a reduzir os prejuízos provocados pelo desgaste de peças, falhas mecânicas e acúmulo de resíduos no maquinário.
Contudo, a manutenção dos equipamentos da propriedade, principalmente a semeadora, colhedora e pulverizador, também traz benefícios para o manejo da ferrugem-asiática.
Segundo Milanesi, uma semeadora corretamente regulada contribui para estabelecer a população de plantas recomendada para cada cultivar. Isso evita o adensamento excessivo da lavoura, por exemplo, condição que pode favorecer a formação de microclimas que facilitam o estabelecimento da ferrugem-asiática e de outras doenças foliares.
A regulagem da colhedora também merece especial atenção. De acordo com a especialista, máquinas desreguladas tendem a aumentar as perdas de grãos durante a colheita. Quando esses grãos germinam, dão origem às plantas voluntárias de soja, que servem de ponte verde para o fungo causador da ferrugem-asiática.
Ainda, Milanesi destaca a importância da manutenção dos equipamentos para aplicação dos fungicidas, como o pulverizador. A limpeza e a regulagem periódica do equipamento e a substituição dos filtros e bicos de pulverização, quando necessário, favorecem uma aplicação mais eficiente dos produtos, aumentando a eficiência dos fungicidas ao longo do ciclo da cultura.
Como fazer o manejo químico da ferrugem-asiática com fungicidas
O manejo químico com fungicidas é uma medida muito importante para o controle da ferrugem-asiática. Entretanto, é fundamental que ela não seja tratada como a única prática de manejo contra a doença.
De acordo com Milanesi, a melhor estratégia para aplicação de fungicidas em parte aérea visando o manejo da ferrugem-asiática é o monitoramento da lavoura a fim de detectar os primeiros focos da doença e, a partir disso, programar as aplicações de fungicidas de 14 em 14 dias.
— O manejo químico deve ser baseado no risco epidemiológico e o número de aplicações depende do surgimento dos primeiros focos da ferrugem asiática na lavoura. De modo geral, a primeira aplicação de fungicidas pode ser posicionada entre V6-V8 e R1, e as aplicações seguintes devem respeitar o intervalo do produto e ser ajustadas conforme a evolução da doença. Intervalos próximos de 14 dias são frequentemente utilizados, mas não são uma regra, pois isso é dependente também do ciclo de cada cultivar. Contudo, o produtor deve atentar-se para não deixar o residual do fungicida cair totalmente, ou seja, “abrir demais” o intervalo antes de realizar a próxima aplicação — orienta.
Artigo destaca principais características e recomendações sobre a tecnologia de aplicação
Quais fungicidas apresentam melhor desempenho contra a ferrugem-asiática?
Conforme a especialista, algumas moléculas têm apresentado melhor eficiência de controle para a doença. Mas, independentemente do produto a ser escolhido, Milanesi destaca a importância do agricultor utilizar adjuvantes e fungicidas multissítio para compor a mistura.
— É recomendável que o produtor utilize fungicidas multissítio na mistura, para proteger as outras moléculas da aplicação em momentos de alta pressão da doença e contribuir, assim, para o manejo da resistência. Além disso, é indicado que ele use corretamente os adjuvantes recomendados, para fazer com que os fungicidas tenham uma boa aderência à folha da planta, garantindo um melhor efeito residual — pontua.
Dessa forma, Milanesi destaca alguns ingredientes ativos que, quando presentes na mistura de um determinado fungicida, podem ser indicados para obter um controle mais efetivo da ferrugem-asiática na soja.
De forma geral, a profissional recomenda a associação de triazois, estrobilurinas e fungicidas multissítio, embora também possam ser realizadas as misturas contendo carboxamidas.
Principais triazois presentes em misturas utilizadas no manejo:
- Protioconazol
- Tebuconazol
Principais estrobilurinas presentes em misturas utilizadas no manejo:
- Trifloxistrobina
- Metominostrobina
Principais carboxamidas presentes em misturas utilizadas no manejo:
- Impirfluxam
- Fluxapiroxade
- Bixafem
Principais fungicidas multissítio do mercado:
- Clorotalonil
- Mancozebe
— Entre as misturas avaliadas na Rede de Ensaios Cooperativos da Embrapa na safra 2025/2026, destacou-se a associação de impirfluxam + protioconazol + trifloxistrobina + mancozebe, que apresentou aproximadamente 80% de controle da ferrugem-asiática, na média dos ensaios. Portanto, esse resultado reforça a importância da associação de fungicidas com diferentes mecanismos de ação, incluindo os multissítios, no manejo da doença — completa Paola Milanesi.
Tratamento de sementes: mais proteção durante o estabelecimento da lavoura
Apesar de não ser um método direto de controle da ferrugem-asiática, pois o fungo Phakopsora pachyrhizi não é transmitido pelas sementes, o tratamento de sementes é uma prática sempre recomendada para o produtor, ainda mais em anos úmidos.
Isso porque a medida protege a planta em seu período de maior vulnerabilidade, o estabelecimento. Assim, o tratamento de sementes, junto ao uso de sementes certificadas e de qualidade, proporciona um estabelecimento inicial mais uniforme e vigoroso, preservando o potencial produtivo da lavoura.
Uso de sementes certificadas e de qualidade é fundamental para sucesso da lavoura: entenda
— O tratamento de sementes protege a planta justamente na fase em que ela está mais suscetível, quando a semente germina e origina uma plântula. Nesse período, aumenta o risco de infecção tanto por fungos transmitidos pelas sementes quanto por patógenos presentes no solo, capazes de comprometer o estabelecimento e o desenvolvimento da cultura. Além disso, estudos mostram que o tratamento de sementes apresenta efeito residual por aproximadamente 20 dias após a emergência, garantindo uma proteção indispensável durante um dos períodos mais críticos para o desenvolvimento da soja — explica.
Manejo integrado é a chave para controlar a ferrugem-asiática
Frente à doença mais importante da cultura da soja, é importante que o produtor adote todas as medidas integradas de manejo da ferrugem-asiática. Isso passa, também, por entender que o controle químico é apenas um dos pilares do manejo e não pode ser adotado como o único método de controle.
Para um bom manejo da ferrugem-asiática, recomenda-se que o produtor respeite integralmente o vazio sanitário e o calendário de semeadura indicado, utilize cultivares com bom nível de resistência à doença e adote seu posicionamento correto, faça as revisões necessárias no maquinário, realize o tratamento de sementes e, complementarmente, aplique fungicidas em parte aérea.
Ao adotar o manejo integrado da doença, o produtor potencializa suas chances de sucesso contra a ferrugem-asiática, reduzindo perdas e contribuindo para uma propriedade mais sustentável.
